Uma exposição para resgatar a memória e ressignificar as relações da cidade contemporânea na 14a Bienal Internacional de Arquitetura
Quando fomos procurados pela Somaúma, a demanda era ocupar um espaço de 400m² dentro da exposição da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura, realizada no Pavilhão Lucas Nogueira Garcez (Oca), no Parque do Ibirapuera. O projeto deveria atender a três premissas principais:
Reaproveitar ao máximo materiais já existentes, reduzindo a necessidade de novas produções.
Criar um espaço flexível, capaz de receber festas, feiras e exposições organizadas por diferentes grupos e artistas — especialmente ligados a movimentos de pessoas pretas.
Inserir os empreendimentos da Somaúma como parte da narrativa expositiva, integrando-os ao conteúdo da Bienal.
O ponto de partida foi compreender simultaneamente a dinâmica da 14ª Bienal de Arquitetura e o próprio espaço da Oca, tanto na dimensão dos fluxos quanto na dimensão simbólica.
Como o espaço da Somauma seria uma exposição dentro de outra exposição, parecia importante que ele se distinguisse do ritmo geral da Bienal. Enquanto grande parte da mostra se organiza a partir de painéis e conteúdos densos — em uma experiência mais associada a andar e observar — optamos por criar um espaço pensado para ficar e descansar.
Para isso, utilizamos caixas expositivas de madeira já empregadas na exposição Ancestral Digital. Ao reconfigurar a posição desses módulos, foi possível marcar um perímetro claro que delimitasse o espaço Somauma sem comprometer a permeabilidade visual e espacial do conjunto.
Projeto: Bruno Kim
Produção: Vitória Mabi
Fotografia: Pedro Napolitano Prata, Romero Dominguez
Cliente: Somaúma
No centro dessa praça estava o café do Preto Cozinha.
À esquerda, a mesa do Comedor Emergencial (Sauer Martins).
À direita, o espaço expositivo ocupado por Coletivo Coletores, Coletivo Muda e Feira Preta — esta última montada aos finais de semana — além do material de divulgação dos empreendimentos da Somaúma.
Esses três elementos estruturam o eixo principal do espaço.
Articulados principalmente pelas mesas e estantes da Livraria Eiffel, desenvolvidas por estudantes da Escola da Cidade. Também foi criado um pequeno espaço de estar secundário, com proporções semelhantes às de uma sala de estar doméstica, funcionando como contraponto à escala ampla típica das exposições.
Com isso, a praça passou a funcionar como uma espécie de foyer do auditório, que recebia eventos e encontros diariamente ao longo da Bienal.
Historicamente, nesse local ficava o chafariz projetado por Tebas, considerado o primeiro arquiteto paulista — e também um homem negro — posicionado em frente à Igreja da Misericórdia.
Inspirados por essa relação histórica entre arquitetura, cidade e presença negra, reproduzimos simbolicamente essa lógica dentro da exposição: o espaço destinado aos coletivos e artistas negros foi posicionado em frente ao afresco “Missa de 25 de Janeiro – Conversão de São Paulo – 1554”, de Manuel Lapa, criando um diálogo entre memória, representação e presença contemporânea.